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Qui, 01 de Dezembro de 2016 11:45

MUCUINS E JIQUITAIAS

Escrito por Haroldo Figueira
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Quem é do sexo masculino e nasceu no norte do país conheceu bem, quando criança, o efeito perturbador do ataque desse bichinho quase invisível que atende pelo nome de mucuim. Também não deve guardar lembranças agradáveis da jiquitaia, formiga minúscula, igualmente encontrada nas plagas amazônicas, com a ressalva de que, neste caso, suas recordações não se restringem apenas ao período da infância.

O mucuim é uma espécie de ácaro vermelho, presente nos gramados e capinzais de um modo geral. Para enxergá-lo é preciso uma dose extra de esforço ocular. Isso porque, além de muito pequeno, a vermelhidão que deixa na parte do corpo onde se aloja ajuda a camuflá-lo. Quanto à jiquitaia, é possível visualizá-la a olho nu com um pouco mais de nitidez.

Os dois agem sobre a epiderme de modos diferentes. O mucuim instala-se, principalmente, na área externa da bolsa testicular, grudando ali feito carrapato e desencadeando no local uma coceira tão irritante, quanto persistente. Já a jiquitaia é menos seletiva e não escolhe lugar no corpo para aplicar as suas ardidas alfinetadas.

A despeito do espaço temporal que separa o garoto de ontem às voltas com infestações de mucuins, do homem de cabelos brancos de hoje que há muitos anos perdeu o contato com o parasita, nunca me esqueci daquela desesperadora vontade de coçar que parecia não dar tréguas. Recordo, também, que para me ver livre desse prurido irritante, precisava contar com o auxílio da minha mãe. Era ela quem, munida de uma agulha esterilizada na chama do fogão ou de um espinho de laranjeira, desencravava os pequenos ácaros das partes afetadas.

Mães são anjos benfazejos sempre prontos a socorrer suas crias quando estas se encontram em dificuldade. Meu filho caçula que o diga. Norte-rio-grandense de Natal, não conhecia mucuim, nem jiquitaia. Em 1981, retornei a Óbidos com a família para uma temporada de trabalho. O menino tinha, então, dois anos. Acho que não chegou a entrar em contato com o primeiro, mas logo aprendeu a chamar a formiga pelo nome. De vez em quando se ouviam seus gritos ecoando pela casa: - jiquitaia, jiquitaia! A mãe acorria de imediato e, carinhosamente, tentava mitigar as dores do moleque untando com Vick VapoRub as pequenas lesões cutâneas deixadas pelo inseto.

Eu mesmo protagonizei uma “pegadinha” envolvendo jiquitaias. Certa vez, no início dos anos 1970, viajei para Manaus. Hospedei-me, à época, em uma república, onde dois dos meus irmãos dividiam o aluguel e a moradia com outros jovens conterrâneos. A habitação era modesta, condizente com as poucas posses daqueles que, ainda iniciantes, batalhavam para vencer na vida. Não havia banheiro completo na residência. O vaso sanitário ficava no interior da casa, mas para tomar banho, fazia-se necessário deslocar-se até um quadrilátero de madeira, sem cobertura, construído nos fundos do terreno, na divisa com o lote contíguo. Dentro, apenas um barril com água e uma cuia com a ajuda da qual se molhava o corpo.

Uma noite desci para banhar-me. Terminada a tarefa, lancei mão da toalha que havia estendido em uma das paredes e comecei a enxugar-me. Não demorou para que sentisse nas costas o ardor característico das ferroadas. Aturdido com a inesperada ofensiva, acabei descuidando-me do liso chão de assoalho sob os meus pés. Resultado: escorreguei, meu corpo projetou-se contra uma das laterais do cubículo e fui parar no quintal do vizinho, do jeito que vim ao mundo.

Só não paguei um mico maior porque estava escuro e, aparentemente, ninguém se apercebeu do acidente. Rapidamente levantei-me, limpei-me, vesti-me, procurei recolocar as tábuas que haviam se despregado por ocasião da queda encostando-as no vão aberto deixado na parede e retornei para casa, com o lombo em fogo e maldizendo minhas iradas agressoras.

Há um antigo ditado popular que reza: tamanho não é documento. O adágio aplica-se aos humanos e visa contrapor-se à tese de superioridade entre eles baseada na estatura física. Penso que o ensinamento que ele embute deveria valer para todo o reino animal. Com efeito, nada obstantes as enormes diferenças de porte e de força que temos em relação a minúsculos seres como jiquitaias, mucuins, carapanãs (notadamente da modalidade aedes aegypti), piuns, etc., esses animaizinhos não só nos enfrentam, como são capazes de causar-nos transtornos consideráveis.

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