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Qua, 21 de Dezembro de 2016 18:05

BREVE REFLEXÃO SOBRE O NATAL

Escrito por Haroldo Figueira
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Chegou dezembro. Estamos, novamente, no período do Natal. Nessa época do ano, sentindo-se como que tocadas pela mística que cerca as celebrações do nascimento de Jesus, as pessoas abandonam momentamente os casulos individualistas em que se refugiam no restante do ano e deixam-se contagiar pelo louvável desejo de confraternizar.

Um clima de congraçamento inspirado nas pregações de amor ao próximo legadas pelo ilustre aniversariante do mês toma conta da humanidade. De repente, quase todos, uns de modo mais contido e limitado, alguns com mais intensidade e abrangência, passam a prestar atenção no outro, a vê-lo com interesse e não com indiferença, a tratá-lo como semelhante e não como alguém estranho.

É tempo de reunir a família, os amigos, os colegas; também de trocar presentes, cumprimentos, votos de paz e felicidade. É tempo de fazer valer a tradição das ceias com comidas típicas, das casas iluminadas e caprichosamente decoradas, das brincadeiras de amigo secreto, de divertir-se com a ansiedade das crianças que sonham com a visita do Papai Noel. É tempo, ainda, de lembrar da gente marginalizada que sobrevive por aí e de levar até ela um pouco de solidariedade.

Às vezes comparo a festa do Natal aos primeiros atos da encenação de uma peça teatral que, reprisada há milênios, nunca perde o encanto. No enredo, um Deus bom e misericordioso compadece-se do sofrimento de seu povo que fora castigado com a exclusão do Paraíso, por falta grave cometida contra o seu Senhor ainda nos primórdios da criação do mundo. Resolve, então, mandar seu filho unigênito à Terra para, com o sacrifício da própria vida, redimir os apenados do pecado de seus ancestrais e garantir para eles a oportunidade de reconquistar a benesse perdida. Só que, até chegar ao final feliz esperado, o roteiro (a Bíblia) dá conta de muitas ações dramáticas, todas elas ricas em aprendizado para o público espectador.

A cena que contempla Maria visitada pelo anjo revela um admirável testemunho de confiança em Deus e de coragem. Informada de que fora escolhida para ser a mãe do Verbo Encarnado, e após ser esclarecida de como isso se daria, a jovem aceitou a incumbência sem hesitar (Lc 1-26-37), mesmo sabendo dos riscos inerentes a essa sua decisão. Ela estava comprometida matrimonialmente com José; se aparecesse grávida e o marido a acusasse de adultério, sua morte por apedrejamento seria inevitável.

Sublime, também, a atitude de José. Relatam as Escrituras que, antes de ver dirimidas, em sonho, suas dúvidas sobre o que verdadeiramente estaria acontecendo, e ao perceber que sua mulher engravidara de um filho que não poderia ser dele, o carpinteiro - por certo corroído pela dor de uma suposta infidelidade conjugal - não se preocupou em lavar a honra e repudiar a esposa. Pelo contrário, seu pensamento

primordial foi no sentido de proteger Maria. Eis o que está escrito: “José, homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente” (Mt 1,19). Transportemo-nos para a sociedade judaica da época, patriarcal e machista e compreenderemos a dimensão da generosidade desse operário.

Há muito mais sofrimento nas circunstâncias que envolvem o nascimento de Jesus. Ao se dirigirem a Belém para o recenseamento determinado pelo imperador romano César Augusto, José e Maria - esta em adiantado estado de gestação - não encontraram vaga nas hospedarias da cidade. Maria entrou em trabalho de parto e, à falta de outro lugar que lhe servisse de abrigo, deu à luz o Messias no interior de um estábulo. É o que preconiza a narrativa evangélica de São Lucas, a saber: “Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu filho primogênito e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2, 6-7).

A meu ver, sem desconsiderar a desumanidade contida no gesto de negar guarida a uma mãe prestes a parir, o episódio desvela um erro de avaliação bastante comum entre os humanos, presente ainda nos dias atuais: costuma-se valorizar o “ter” em detrimento do “ser”. Será que se São José não fosse pobre ou tivesse prestígio as portas dos meios de hospedagem permaneceriam fechadas para o casal? Muito provavelmente a resposta seria não. Nada obstante, a despeito da precariedade e da inadequação do ambiente em que se deu o parto, o Salvador nasceu. A humildade que sempre o acompanhou a partir daí não foi capaz de subtrair-lhe nem a dignidade, nem a majestade.

O “ser” prevaleceu sobre o “ter”. O Galileu que a todos impressionava com sua sabedoria, que teve por berço um cocho e optou por uma vida pobre e despojada, que se manteve distante da opulência dos palácios e da companhia dos poderosos, que selecionou para divulgar os seus ensinamentos não gente letrada, mas simples pescadores, que não tinha sequer um lugar “onde reclinar a cabeça” ( Mt 8-20), haveria com todos o méritos de tornar-se a pessoa mais venerada da História, tão importante a ponto de segmentá-la em antes e depois dele. Ninguém da espécie humana, por mais riqueza e poder que ostentasse, conseguiu até hoje ser tão grande quanto Ele.

Não tenho formação teológica, não sou autoridade no assunto, minha devoção religiosa não vai além de uma fé claudicante, de orações feitas solitariamente e da freqüência regular às missas de domingo. Considerem a abordagem que fiz, portanto, como um despretensioso exercício de reflexão pessoal. Muito me agradaria, no entanto, se pudesse servir para outrem.

Um feliz e abençoado Natal para todos os meus leitores e amigos!
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