Sáb, 28 de Outubro de 2017 12:01

A CRUZ DE ISOPOR

Escrito por Haroldo Figueira
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Preliminarmente, torna-se relevante deixar claro que existe, dentro da nossa sociedade, muita gente que cumpre com seus deveres de cidadãos e que não mede esforços para levar uma vida pautada pela ética e pelo respeito às regras da convivência civilizada. Pessoas íntegras, assim, possuem envergadura moral para reclamar e denunciar as transgressões alheias.

De outra parte, não é pequeno o grupo de compatriotas que, fazendo vista grossa aos próprios erros, culpa o outro pelas muitas mazelas sociais e políticas que afligem a nós brasileiros. Não questiono a procedência das acusações. Só acho que, quem age moralmente errado, não possui autoridade para cobrar conduta escorreita de quem quer que seja.

Digo isso, não para eximir de responsabilidade a súcia de malfeitores - notadamente os de colarinho branco - que se associaram para pilhar o patrimônio público. Mas porque me parece que acusar alguém sem antes fazer autocrítica acerca das próprias ilicitudes, não só denota cinismo, como, de alguma forma, realimenta o círculo vicioso de corrupção e de desrespeito que tanta indignação e revolta nos causam.

Tentarei ser mais objetivo. Estou entre aqueles que entendem que a ética não comporta relativizações. Não existe homem ou mulher mais ou menos ético. Ou se é ético por inteiro ou não. Pequenos atos desonestos também são antiéticos. Daí que, sem mudança de comportamento nas violações menores, o transgressor eventual de hoje tende a transformar-se no grande infrator de amanhã. Talvez isso explique o porquê da subsistência de tantos políticos corruptos, apesar da renovação significativa que os quadros de representantes do povo experimentam a cada eleição.

Todos somos testemunhas da variedade de condutas abusivas contra o outro e contra a lei praticadas no dia-a-dia por gente que, ainda assim, considera-se moralmente inatacável, tais como: negar-se a fornecer recibos de serviços profissionais prestados ou maquiar balanços com o intuito de sonegar o imposto de renda, superfaturar obras, fazer uso de tráfico de influência, estacionar em fila dupla, ocupar indevidamente vagas de estacionamento reservadas a idosos ou deficientes físicos, “imprensar” feriados achando normal ganhar sem trabalhar em dias úteis, não cumprir integralmente o horário de expediente, adulterar combustíveis, adquirir produtos piratas, deixar de recolher contribuições previdenciárias de seus empregados, agredir o meio ambiente e tantos deslizes mais.

Embora não o admitam explicitamente, é provável (e preocupante) que muitos agem desse modo alinhados com as diretrizes de uma tradição cultural que se incorporou ao nosso convívio comunitário e que admite como normais o jeitinho brasileiro, a malandragem, o vezo de “levar vantagem em tudo”, cacoetes insanos, que nada mais são do que artifícios fraudulentos, de cunho individualista, lesivos ao bem comum, incompatíveis, portanto, com o espírito coletivista que deve presidir a vida democrática e republicana.

Ora, quando em uma comunidade, qualquer comunidade, o interesse individual sobrepõe-se ao coletivo, esgarça-se o tecido social e a regra que passa a prevalecer é a do “cada um por si e Deus por todos” ou a do “salve-se quem puder”. Possivelmente, aí reside a razão maior do atraso, da desordem, da desigualdade e da violência que infelicitam o país.

Todavia, essa quizila com o outro não se resume em apontar-lhe defeitos. Ela possui uma faceta diferente que se traduz em alguém sentir-se incomodado com a aparente vida bem resolvida do semelhante. Para esse amargurado queixoso, o viver do vizinho seria menos espinhoso, mais bafejado pela sorte, mais rico em oportunidades e benesses, com poucas pedras de tropeço no caminho. Tudo isso a partir de mera ilação pessoal e não por conhecimento de causa.

Sobre o assunto, veio-me a memória a homilia de um padre que ouvi em uma missa de domingo. Enquanto pregava sobre a passagem do Evangelho de São Mateus em que Jesus ensina: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mat. 16-24), o sacerdote fez uso de uma imagem interessante ao falar do hábito que algumas pessoas têm de achar que o fardo que o outro carrega é maneiro, uma espécie de cruz de isopor.

Penso que vale a pena refletir sobre essa metáfora. Será que a cruz que o fulano transporta sobre os ombros é realmente leve, enquanto que a do sujeito que se lamuria é feita de itaúba, sucupira, mogno, ipê ou outra madeira maciça e pesada? Será que, se a troca fosse possível, este aceitaria, com base apenas em conjecturas, que os papéis se invertessem. Cuidado, amigo invejoso! Talvez viesse a descobrir tardiamente que a cruz de isopor era a sua.



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